domingo, 17 de janeiro de 2010

CONTROLE TECNOLÓGICO DO CONCRETO


Após 2003, com a mudança da NBR6118, “norma mãe” do concreto, toda uma nova cadeia de procedimentos entrou em vigor, envolvendo o Projeto, a Produção e o Controle do concreto aplicado em estruturas.


Particularmente no caso dos edifícios comerciais, residenciais de médio e grande porte, estas modificações foram significativas e o compromisso com elas, por parte dos Profissionais de Engenharia e demais envolvidos em obras é compromisso legal.


Entretanto as naturais dificuldades de reestudar, compreender e adaptar os novos conhecimentos aos procedimentos do dia a dia das obras está ainda incipiente em muitas obras, e temos percebido que os Calculistas têm reclamado muito de serem chamados a atenderem não-conformidades, especialmente baixas resistências do concreto.


Naturalmente o profissional Responsável pelo Cálculo tem que trabalhar junto às suas obras e colaborar com elas, especialmente com o Responsável pela Execução, no sentido de fornecer informações de Projeto completas e sanar dúvidas sobre este Projeto, para que a execução flua com correção.


Por sua vez cabe ao Responsável pela Execução organizar-se de modo a respeitar o Projeto de forma total na Execução, buscando informações e adotando procedimentos que garantam a qualidade da obra como definida.


Isto significa que o concreto da estrutura deve ser corretamente elaborado, seja por terceiros contratados, seja pela própria equipe na obra, e devidamente controlado inclusive com toda a documentação que comprove, a qualquer tempo, a qualidade do concreto em todas as partes da estrutura.


O controle é parte integrante, importantíssima não apenas para a comprovação cabal da qualidade da obra mas também para o próprio andamento da mesma, com respeito às ações construtivas e seus efeitos (esforços) sobre a estrutura, que precisam ser respeitados para evitar fissuras e deformações originadas nesta fase.


Até meados dos anos 70 todo o concreto era feito em obra, sob a supervisão direta do Engenheiro Responsável pela Execução, que providenciava o traço, sempre com apoio de um Laboratório de controle e/ou assessoria de um Engenheiro Tecnologista de Concreto. Desta forma, o traço e todo um programa de controle era organizado para permitir conhecer e atestar a qualidade do concreto a qualquer tempo, bem como apoiar as decisões de movimentar escoramentos, retirar formas, liberando e aprovando a estrutura no devido tempo.


A partir de 1978, com a reformulação da NB1/60, surgiu a NB1/78, logo depois a NB1/80, que trouxe modificação significativa na interpretação de resultados do concreto, introduzindo os conceitos semi-probabilísticos e neles o surgimento dos estimadores de fck como forma de verificar o atendimento à qualidade.


Em 1992 surgiu a NBR12655, Norma de Preparo e Controle do concreto, que estabeleceu as diretrizes que vigoram até hoje sobre os aspectos relativos à Tecnologia do Concreto nas obras. Esta Norma deveria ter sido divulgada – e infelizmente não o foi - pois contrariava e tornava caducos os conceitos da NB1/80, em vigor, sobre a determinação da qualidade do concreto.


Neste ínterim, surgiram e dominaram os procedimentos de execução do concreto para obras grandes e médias, as empresas de Serviços de Concretagem, mais conhecidas por concreteiras passando a fornecer o material nas obras com co-responsabilidade sobre a qualidade da estrutura.


O advento das concreteiras, um avanço tecnológico desejável, trouxe entretanto duas necessidades que, se não completamente atendidas, resultariam - como vêm resultando em grande parte do mercado – em problemas de qualidade para o concreto, quais sejam:

  1. Interagir sob a Supervisão do Engenheiro Responsável pela Execução;

  2. Participação do Laboratório de Concreto como terceira parte, no fornecimento dos resultados do controle.


Infelizmente as coisas não aconteceram assim, em grande parte das obras que, ao contrário, tiveram um afastamento do Engenheiro Responsável pela Execução no Preparo e no Controle do concreto, além da inexistente ou deficiente contratação do Laboratório de Controle, considerada erroneamente como um custo desnecessário por muitas construtoras/incorporadoras, que buscam minimizar, com grande prejuízo tecnológico às obras.


Muitos problemas podem ser enumerados como resultantes desse estado de coisas:

  • alienação do Engenheiro da Obra em relação ao concreto desde sua contratação, tratada como um negócio e realizada na área de Suprimentos, retirando a autoridade do profissional da Execução, mesmo quando constata e comprova os erros cometidos pela concreteira, de trocar de fornecedor;

  • inexistência de tecnologia de concreto na obra, ao lado do Engenheiro de Execução, pela falta do Laboratório de Controle;

  • esvaziamento do papel dos Laboratórios de Controle – que é um serviço caro e especializado, precisa de muitos contratos para se viabilizar – relegando-os ao papel de meros “rompedores de corpos de prova”, sem participação nas questões tecnológicas do concreto;

  • controle” inadequado pela NBR 7212 (norma de produção, específica das concreteiras) aplicado à obra pelas concreteiras, ou outros “improvisos” (moldagem na obra por funcionários não-qualificados, p. ex.) com a conivência dos contratantes donos da obra, sujeitando a estrutura ao controle tecnológico ineficiente e fora de padrões de Norma;

  • falta de evolução tecnológica nas obras.


Todas estas graves ocorrências estão disseminadas, com honrosas exceções, no mercado atual. Colegas Calculistas estão se manifestando de que recebem inúmeras solicitações de revisão de Projeto em função de resultados baixos de concreto, que chegam às suas mãos sem um critério adequado de apresentação, sem localização em lotes, muitas vezes já com corpos de prova extraídossendo que esta atribuição de identificar as áreas e decidir por extrações é atribuição do Calculista – sem consultá-los, e já, afoitamente, pedindo sua opinião, sem maiores critérios.


Ora, todos deveriam saber minimamente que o trabalho do calculista se encerra com a elaboração e a Responsabilidade Técnica sobre o Projeto Estrutural. E que portanto, solicitar ao Calculista a análise de resultados “suspeitos” é um trabalho adicional, que precisa ser contratado com todos os ritos dessa contratação. E mais. Interpretar resultados de concreto envolve, mais do que o Calculista, a contratação de um Engenheiro Tecnologista do Concreto experiente, capaz de avaliar a consistência do controle realizado e resultados obtidos na fase de moldagem, e, já que as extrações foram feitas, também estes resultados e procedimentos. Este profissional determinará a qualidade do concreto fornecendo o Laudo com as informações – organizadas e consistentes – que o Calculista adotará em sua revisão.


Após estas etapas surgirá um novo projeto para as regiões não-conformes, segundo as recomendações da NBR 6118: reforço estrutural, uso restringido, demolição e refazimento das partes não-conformes.


Como se pode perceber, avançar e extrair corpos de prova sobre uma estrutura que demonstra - com resultados que precisam ainda ser avaliados – resultado aparentemente não-conformes é uma precipitação que no mínimo pode colocar em maior risco a estrutura, e que portanto só pode ser realizada sob a ordem e Supervisão do Engenheiro Responsável pelo Projeto.


Em conclusão a este artigo, afirmamos a importância de seguir, para o correto Controle Tecnológico, os seguintes passos, que exige o atual estado da arte, representado e em vigor através de nossas Normas Técnicas vigentes:


  1. Definir em Projeto todas as características do concreto, se necessário com estudos específicos dos materiais, realizados por Laboratório de Controle idôneo.

  2. Organizar o fornecimento do concreto à obra contratando uma empresa concreteira através de critérios técnico-econômicos, preferencialmente já contando com o apoio de uma empresa de controle tecnológico e com a Supervisão do Engenheiro Responsável pela Execução, assessorado por Engenheiro Tecnologista de Concreto experiente.

  3. Ajustar os procedimentos de controle, as responsabilidades e sanções quanto aos resultados do concreto, restabelecendo a hierarquia do Laboratório Contratado pela obra, sobre a interpretação desses resultados.

  4. Acionar o Engenheiro Responsável pelo Projeto Estrutural na eventualidade de surgimento de lotes com resultados não-conformes, já devidamente organizados e interpretados pela Empresa de Controle em comum acordo com o Engenheiro Responsável pela Execução, para que este tome a decisão cabível, que poderá iniciar-se pela simples aceitação dos resultados, seguindo por eventuais necessidades de extração e ruptura de corpos de prova e interpretação dos resultados, podendo prosseguir para a realização de provas de carga, reforços estruturais, até mesmo demolição e refazimento.


Sempre que entender necessário e especialmente no surgimento de não-conformidades, o Engenheiro Calculista deverá solicitar o apoio de um Engenheiro Tecnologista de Concreto para fornecer-lhe, através de estudos especializados requeridos, os resultados do concreto devidamente organizados e consistentes, condição básica para tomadas de decisões necessárias nesta grave situação.

Fonte : Egydio Hervé Neto

http://www.peabirus.com.br/redes/form/post?topico_id=21214&pag=1

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