sábado, 18 de junho de 2011

RISCOS DE PATOLOGIAS COM A SUPERDEMANDA DE OBRAS

ARMADURA EXPOSTA AINDA É UM DOS PRINCIPAIS PROBLEMAS PATOLÓGICOS DA ESTRUTURA



Insuficiência de estudos geotécnicos

A pressa somada à ingenuidade ou à irresponsabilidade técnica tem pressionado construtores a iniciar a etapa de fundações de empreendimentos sem estudos adequados do solo e, em alguns casos, com laudos de empresas de qualificação duvidosa.

Podemos dizer que quase se trata de um "vício técnico". A amostragem por comparação é regra, não exceção. Os dados sobre terrenos e áreas vizinhas são usados para se executar um número de sondagens muito inferior ao que se deveria, mesmo tratando-se de algo previsto em norma técnica.

Falhas em projetos

Os escritórios de projeto estão atolados. A capacidade de gerar trabalhos de qualidade está ameaçada tanto pelo volume quanto pelos prazos a que estão submetidos. O segmento não foi capaz de atrair corpo técnico nem de fazer a sucessão de gerações. Ou seja, não há projetistas suficientes, no momento, com experiência para lidar com projetos complexos. A isso tudo soma-se a busca desenfreada pela redução de custos, que leva à utilização "cega" de programas de computador, sem uma base conceitual técnica e criteriosa. São comuns relatos como:

- o cálculo não levou em consideração peculiaridades do planejamento das estruturas que podem submetê-las a carregamentos e esforços de trabalho não previstos em idade mais jovem;
- edifícios mais delgados não foram devidamente analisados quanto aos esforços; 
- nas estruturas mistas, as interações de forças entre materiais diferentes não receberam os devidos cuidados, afetando vedações, revestimentos e outros sistemas da edificação.


Coordenação falha de projetos

 A velocidade e o volume dos empreendimentos tornaram mais crítico o planejamento das construtoras, demandando urgentemente, nessas empresas, a implantação de um modelo de sistema de gestão e coordenação dos projetos. Na escala atual, a falta de integração e as improvisações decorrentes de um planejamento inicial malconcebido provocam prejuízos durante a execução e potenciais patologias durante a vida útil da edificação.

Concreto não-conforme

É fato notório no meio técnico que muitos concretos fornecidos não atingem a resistência característica à compressão determinada nos projetos estruturais. A polêmica envolve construtores, fornecedores de concreto, projetistas e laboratórios. É preciso, entretanto, sairmos do estágio de apontar culpados e entrarmos em uma nova etapa, de providências técnicas de âmbito setorial.

Falta de checagem das estruturas

A velocidade e o volume das obras não constituem desculpas para o descaso com procedimentos básicos em um canteiro de obras. É uma questão de responsabilidade profissional, técnica e, inclusive, jurídica. Os novos profissionais que chegam agora ao mercado precisam ser devidamente orientados para evitar erros grosseiros de execução.

Despreparo dos engenheiros de obras

A lacuna de várias gerações de profissionais que migraram para outros setores da economia obrigou as empresas a apostar em uma leva de novos engenheiros. Há excelentes técnicos em formação, mas muitos deles têm assumido desafios incompatíveis com a sua experiência e, muitas vezes, até com a sua capacitação. Em meio à superdemanda de produção, o tempo para treinamento torna-se ainda mais escasso, e a formação dos engenheiros de obras segue comprometida, realizada algumas vezes de forma atabalhoada e sujeita a sérios riscos.

Visão da construção como commodity: predominância da incorporação sobre a construção

Após o ciclo de abertura de capital de várias incorporadoras na Bolsa de Valores, a partir de 2006, o segmento de real estate no Brasil passou a ser objeto de desejo de investidores locais e estrangeiros. A lógica do mercado financeiro, com a publicação e a análise trimestral de resultados, passou a ser predominante, principalmente nas grandes incorporadoras e construtoras. O respeito às particularidades técnicas de cada obra e às características inexatas e imprevisíveis da atividade de construir, sempre sujeita às diversas condicionantes, sociais, culturais e naturais (geológicas, climáticas, hidrográficas etc.), passou a ser menosprezado, em nome de uma lógica focada exclusivamente em resultados financeiros de curto prazo. 


Falta de treinamento da mão de obra

Outra decorrência direta de décadas de estagnação, este problema exige, tanto do governo quanto da iniciativa privada, ações coordenadas em larga escala que, do ponto de vista prático, ainda não se de­sencadearam. A capacidade de atendimento das instituições tradicionais de capacitação dos operários não aumentou na mesma proporção exigida pela demanda de mercado. As tentativas de treinamento nos canteiros são louváveis, mas, infelizmente, ainda incipientes se comparadas ao volume de obras no País. Maior entre todos os gargalos, a falta de profissionais em número e qualidade afeta tanto o mercado quanto o nível das obras.  


Prazos inexequíveis

Seja por pressão de investidores financeiros interessados na maximização de retorno ou de governantes ávidos por dividendos políticos, as empresas têm se deparado com prazos de execução de obras que, mais do que desafiadores, demonstram-se tecnicamente inviáveis, comprometendo a racionalização dos custos e, em muitos casos, princípios básicos da boa técnica.

Nota-se hoje certo descuido no canteiro. Atividades que deveriam ser rigorosamente acompanhadas frequentemente caem na rotina das necessidades do empreiteiro, que executa o trabalho sem cuidados maiores nem com a qualidade nem com a segurança.

Qualidade dos materiais e componentes

É inegável que o controle sobre os materiais hoje é muito maior do que há duas décadas; são feitos mais ensaios, retiram-se mais amostras e o número de produtos verificados é bem maior. Mas no momento em que a disponibilidade de material passa a ser estratégica para a conclusão das obras e a pressão por redução de custos alcança níveis antes intoleráveis, o grau de exigência em relação à qualidade dos insumos utilizados acaba por ser, em alguns casos, relativizada. Com baixos níveis de exigência de qualidade por parte dos clientes, alguns que só exigem preço, a tendência da indústria de materiais de construção - em muitos segmentos, ainda bastante pulverizada no País - é ceder à tentação de buscar maior competitividade com produtos de qualidade duvidosa.
Fonte:PiniWeb-Conselho Editorial Revista Téchne

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